Beleza artificial
Martha Medeiros
O mundo dos nossos dias permite, e as garotas das passarelas buscam novas bochechas, seios inflados, doses de botox e outras soluções de laboratório
O que era para ser uma piada virou fato: a China realizou o primeiro concurso de beleza artificial, ou seja, todas as candidatas passaram por cirurgias plásticas. A vencedora foi Feng Qian, de 22 anos, que havia adicionado mais pele nas pálpebras, moldado novas bochechas, feito uma lipo e injetado botox na face.
Nenhum problema, a maioria das garotas que participam de concursos já passaram por alguma intervenção cirúrgica. Tempos modernos, nada a questionar, a não ser o mal-estar que a palavra artificial provoca.
O artificialismo busca a perfeição e a durabilidade que o real não dispõe. Frutas artificiais não ficam murchas, não possuem manchas, elas brilham sobre a mesa da copa da cozinha, lindas e monstruosas. Flores artificiais não exigem hidratação, não perdem as pétalas, conseguem o milagre de manterem-se frescas e horripilantes por mais de 10 anos. Unhas artificiais, dentes artificiais, peitos artificiais, bronzeamento artificial: tudo perfeito demais para ser bonito. A beleza pressupõe alguma falha.
O único comentário interessante que ouvi a respeito do polêmico presépio do Museu de Cera Madame Tussaud, de Londres, foi que a ex-spice girl Victoria Adams, no papel de mãe do menino Jesus, ficou mais realista do que ela é na verdade. O artista que a moldou deu a ela um ar enigmático e uma vida interior, qualidades que a moça pouca deixa transparecer no seu dia-a-dia. Fico imaginando quantas “mulheres de cera” existem por aí que adorariam posar para um quadro, não sem antes implorar: “por favor, me devolva alguma expressão”.
O culto à imagem deu nisso: uma busca desesperada por parecer o que não é. Uma negação completa àquilo que nos caracteriza e nos diferencia. Por algum motivo que me escapa, estão todos desejando ser uma máscara de si mesmos.
Quase sempre considero que as pessoas ficam mais bonitas na simplicidade do seu cotidiano do que produzidas para festas. Claro que um batonzinho ajuda, uma escova é básica, um brinco levanta o astral, mas peruagem é o caminho mais rápido para a feiura. Brocados e exageros chamam a atenção para nossa debilidade e impedem que as pessoas nos enxerguem pra valer.
Vou mais longe e digo que bonitos, mesmo, somos quando ninguém está nos vendo. Naquelas horas em que nada nos serve de espelho. Quando rimos sozinhos, e o cabelo está de qualquer jeito, quando lemos um livro e estampamos no rosto um ar de descoberta, quando esticamos um último minutinho na cama antes de levantar e enfrentar o dia, quando limpamos o suor da testa com a palma da mão, quando lacrimejamos por causa de uma emoção inesperada. Em todos os momentos em que não há nenhum desempenho, somos espetaculares e únicos. Campeões em beleza natural.
Domingo, 26 de dezembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.